De Stênio Neves ao sargento Loiola, a saga dos policiais que usam receita pronta para entrar na política

(Arte: Rede Onda Digital)
Como nos filmes de ação, cuja receita básica pode ser resumida na expressão “tiro, porrada e bomba”, a política amazonense reúne categorias profissionais que seguem procedimentos comuns na disputa por mandatos, especialmente pela busca da empatia social. Destacam-se, nesse contexto, as categorias policiais, que utilizam a exposição midiática para conquistar votos e cargos.
O primeiro a fazer uso dessa receitinha foi o militar Stênio da Silva Neves, que nos anos 50 do século passado ficou famoso no comando da Chefatura de Polícia mantendo um comportamento violento contra os criminosos da pequena Manaus e, com isso, se aproximou de governadores como Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho, ambos do PTB, e acabou premiado com o posto de prefeito de Manaus.
A estratégia para combater a violência na pacata Manaus deu fama a Stênio Neves e é descrita pelo ex-coronel da Polícia Militar e historiador Roberto Mendonça como “pouco ortodoxa”.
“Os integrantes da terceira idade hoje ainda recordam do método pouco ortodoxo empregado pelo chefe. O de permitir que policiais seviciassem (torturassem) presos, em especial os ladrões, na estrada então conhecida por BR-17 (em nossos dias, a estrada Manaus-Itacoatiara). A má fama custou-lhe o cargo, substituído pelo bacharel José Bernardo Cabral, e um inquérito, do qual é desconhecida a conclusão”, escreve Mendonça no blog Catando Letras e Escrevendo Histórias.
A ampla cobertura midiática dessas ações, geralmente sob anonimato, marcava os jornais da época, que relatavam episódios como o de ladrões jogados no Encontro das Águas com pedras amarradas ao pescoço. Após os governos petebistas, o estilo de Stênio Neves perdeu força e, em 1978, ele tentou se eleger deputado estadual, sem sucesso.

Com a redemocratização do País, na segunda metade dos anos 80, a receita polícia-exposição midiática voltou a ganhar tração, não com um policial, mas com um radialista: José Costa de Aquino, o “Carrapeta”. Eleito deputado estadual e vereador, Carrapeta se envolvia nas ações policiais que eram noticiadas em seus programas de rádio e, posteriormente, de televisão.

O sucesso dele impulsionou os primeiros policiais a retornarem os olhos para a política como espaço de destaque, tendo a mídia como pano de fundo. Nesse período, nos anos 90, destacou-se o policial civil Wallace Souza, que, ao lado do irmão Carlos e, posteriormente, Fausto, comandou o programa policial Canal Livre.
O programa exibia operações policiais e promovia campanhas contra a criminalidade, mas enfrentou problemas que foram revelados posteriormente em denúncias, culminando na cassação de Wallace do mandato de deputado estadual. Ele faleceu em 2010, após uma série de investigações.

Internet impulsiona o uso da velha receita
A receita de violência ou promessa de violência aliada à exposição midiática no combate à criminalidade, lembremos: inaugurada por Stênio Neves em jornais impressos, aperfeiçoada por Carrapeta no rádio e Wallace Souza na televisão, migrou nos últimos dez anos para a internet e, principalmente, para as redes sociais.
O primeiro a se beneficiar da nova forma de comunicação foi o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL). Como capitão da Rocam, batalhão de elite da Polícia Militar, Alberto Neto gravava vídeos de ações da equipe dele nas chamadas “bocas quentes” e assim foi ganhando seguidores e eleitores, tendo sido eleito deputado federal em 2018, repetindo a dose com votação ainda mais expressiva em 2022.
Hoje Alberto Neto é o principal favorito a ganhar uma vaga de senador pelo Amazonas, mas em que pese o estilo agressivo de quem usa a receita de bolo de Stenio Neves, Alberto Neto mantinha a compostura e uma linguagem considerada mais adequada.

Quase nessa mesma linha, seguiram os irmãos Delegado Péricles, deputado estadual com dois mandatos, e o vereador Coronel Rosses, ambos do PL, que usam a rede social tanto com a exposição de ações policiais como divulgação de vídeos de bandidos se dando mal, além da disseminação das iniciativas políticas, com uma receita levemente diferente da original.
De olho na receita que levou o amigo de turma para Brasília, o vereador Capitão Carpê (PL) também seguiu a receita do policial midiático explorando as operações que comandava em bairros da chamada zona vermelha de Manaus. Com a exposição nas redes, Carpê foi o primeiro a ser também convocado para entrevistas nos meios de comunicação tradicionais e com isso turbinou o nome dele nas eleições de 2020, quando foi eleito pela primeira vez.

Sem pecado e sem juízo
O modelo de internet, por ser aberto a todos, dispensa a intermediação dos grandes grupos de comunicação e os interesses dos seus proprietários, liberando os policiais para atuarem e agirem com mais independência e sem qualquer filtro de mediação, levando a receita “tiro, porrada, bomba e meio de comunicação” ao chamado paroxismo.
Ninguém traduz tanto essa nova fase quanto o vereador Sargento Salazar (PL), que nas redes divulgava as ações dele nas ruas com uma linguagem chula, recheada de palavras de baixo calão e ataques para todos os lados. O modelo deu certo: Salazar se elegeu vereador com a maior votação em 2022 e avançou ainda mais.
Atualmente, como vereador, ele produz vídeos para redes sociais, não mais destilando sua “ira” aos bandidos, com quem até baixou o tom, mas, sim, direcionando o ataque ao prefeito David Almeida, ao vice Renato Júnior, ao governador Wilson Lima e ao secretário de Segurança Pública, coronel Vinícius Almeida.
Sem qualquer respeito ou cerimônia, Salazar segue com ofensas, baixo calão nas palavras e incorporou o hábito de dar apelidos aos desafetos. Resultado: é cotado para bater o recorde de votos para a Câmara Federal, hoje em posse do deputado federal Amom Mandel (Cidadania).
Mas como essa roda gira, agora quem opera nessa faixa do eleitorado com a receita de virulência policial e muita mídia, no caso redes sociais, é um novo personagem: Sargento Loiola. O novo personagem tem a verve tradicional direcionada aos bandidos, mas explora ações midiáticas e de grande impacto na sociedade, como a caçada ao pai que matou o filho em meados de janeiro, pintando pichações de facções criminosas e atacando e ameaçando flanelinhas que atuam no Centro.
Para analistas, Loiola, que tem mais cuidado com a língua que Salazar, é candidatíssimo a ser o novo recordista de votos para a Câmara Municipal de Manaus em 2026, isso se já não for candidato a deputado estadual neste ano.







