Além dos likes: como a fé conquista espaço nas redes sociais

Muito além dos likes e do engajamento, as redes sociais têm se consolidado como um espaço de evangelização e fortalecimento da fé. Em Manaus, a empresária Daniz Castilho é um exemplo desse movimento. Ao compartilhar orações, reflexões e testemunhos no Instagram, ela passou a receber mensagens de seguidores que afirmam ter retomado a vida religiosa e voltado a frequentar a igreja motivados pelo conteúdo publicado.
Proprietária da cafeteria Café com Leite, na capital amazonense, Daniz conta que viveu uma reaproximação com Deus há cerca de um ano. A experiência transformou sua rotina, levando-a a participar mais ativamente das missas e das atividades da Paróquia Nossa Senhora das Graças, no bairro Adrianópolis, zona Sul de Manaus. O que começou como um compartilhamento espontâneo da própria caminhada espiritual acabou alcançando mais de 108 mil seguidores.
Segundo a empresária, os conteúdos publicados refletem sua rotina de fé e passaram a ganhar um significado ainda maior à medida que surgiam relatos de pessoas inspiradas pelas mensagens.
“Todo dia a gente posta um pouquinho da nossa rotina. Foi algo que aconteceu de forma natural. Eu publicava uma oração, um testemunho, uma reflexão ou um vídeo compartilhado de algum padre ou frei. Com o tempo, fui percebendo essa necessidade porque, quanto mais pessoas eram alcançadas, mais eu recebia esse feedback, esse retorno”, afirmou.
Para Daniz, as redes sociais podem servir como uma porta de entrada para quem busca se reconectar com a espiritualidade. Ela acredita que a internet funciona como uma ponte entre as pessoas e a vivência da fé, despertando o interesse por uma participação mais ativa na vida religiosa.
“As redes sociais, hoje em dia, eu digo que são uma ponte, que podem te levar a buscar esse caminho. Não significa que a pessoa deva ficar apenas na rede social, assistindo à missa. O objetivo é que ela vá além da tela e viva essa experiência”, afirmou.
Segundo Daniz, o processo de reaproximação com a fé começou após participar da campanha de oração conhecida como “Live da Madrugada”, conduzida pelo Frei Gilson e que ela conheceu por meio das redes sociais. A experiência, segundo a empresária, marcou uma mudança em sua vida espiritual. “Através das redes sociais apareceu para mim o convite da Live da Madrugada. Eu fiz os quarenta dias e, a partir daí, foi o start, porque eu não parei mais”, relatou.
Daniz também afirmou que quem compartilha conteúdos religiosos nas redes sociais pode ser alvo de críticas, mas acredita que o mais importante é a transformação pessoal e a vivência da fé. “Assim como Jesus andava com os apóstolos dele, nenhum foi santo antes de conhecê-lo. A igreja está aberta para todo mundo. O importante é a sua conversão, é realmente você começar a praticar aquilo que você fala e prega todos os dias”, destacou.
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Ao explicar o que motiva os vídeos e publicações que compartilha nas redes sociais, Daniz resume o propósito que orienta sua presença no ambiente digital: incentivar outras pessoas a se aproximarem da fé. “Acho que não há lugar melhor do que buscar o Senhor e pedir o colo de Maria, que é quem sempre intercede por nós”, finalizou.
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Evangelização além das telas
A percepção de que as redes sociais podem aproximar as pessoas da fé também é compartilhada pela pastora, jornalista e teóloga Liliana Rodrigues. Ela relata a própria caminhada espiritual e explica como o Evangelho transformou sua vida, experiência que hoje também compartilha por meio das plataformas digitais.

“Minha caminhada com Cristo é a base de tudo o que sou. Conheci o Evangelho e compreendi que seguir Jesus não é apenas fazer parte de uma religião, mas viver um relacionamento diário com Deus. A fé transformou minha maneira de enxergar as pessoas, os desafios e o propósito da minha vida”, explicou.
A teóloga afirmou que costuma compartilhar momentos de adoração nas redes sociais, mas sempre com discernimento e respeito ao ambiente espiritual. Segundo ela, o ambiente digital ampliou as possibilidades de evangelização e permite alcançar pessoas que talvez nunca entrassem em uma igreja.
“Acredito que as redes sociais podem ser instrumentos poderosos para inspirar vidas, fortalecer a fé e alcançar pessoas que talvez nunca entrassem em uma igreja. Porém, também acredito que nem toda experiência com Deus precisa ser publicada. Existem momentos que pertencem apenas ao altar e ao relacionamento íntimo com o Senhor”, afirmou.
Para a jornalista, há uma diferença entre produzir conteúdo cristão e atuar apenas como influenciador digital. “Produzir conteúdo cristão vai além de publicar versículos ou mensagens motivacionais. É comunicar os princípios do Reino de Deus com responsabilidade, amor e compromisso com a verdade bíblica”, disse. Ela ressalta que o objetivo nunca deve ser construir uma imagem pessoal. “O foco não é o influenciador; o foco é Jesus”, concluiu.
Confira um dos momentos em que Liliana Rodrigues compartilha mensagem de fé
Liliana Rodrigues também faz um alerta sobre a busca por popularidade nas plataformas digitais. Para ela, o alcance de uma publicação não deve ser confundido com o impacto espiritual da mensagem.
“Curtidas, visualizações e seguidores podem indicar alcance, mas não definem o valor da mensagem nem a fidelidade ao chamado de Deus. O sucesso no Reino não é medido pela popularidade, mas pela obediência”, afirmou.
Apesar do potencial das redes sociais como ferramenta de evangelização, a teóloga ressalta que a experiência cristã precisa ser vivida em comunidade. “As redes sociais não substituem a comunhão da igreja nem o discipulado, mas podem ser uma ponte para conduzir pessoas a um relacionamento verdadeiro com Jesus”, finalizou.
Por que a fé conecta tantas pessoas
Mas por que esse tipo de conteúdo desperta tanta identificação emocional? Para o jornalista, especialista em Comportamento Humano e CEO do Instituto Cortezão, Raphael Cortezão, a forte conexão do público com conteúdos religiosos nas redes sociais está relacionada à forma como o cérebro humano busca segurança, significado e pertencimento. Em um cenário marcado pelo excesso de informações e pelas incertezas do cotidiano, mensagens de fé encontram espaço para gerar identificação.
“Conteúdos que falam de propósito, esperança e pertencimento encontram um terreno muito fértil”, afirma. Segundo ele, quando uma pessoa se identifica com relatos de superação ou de busca por sentido, ocorre um processo conhecido como validação emocional, que desperta a sensação de não estar sozinha.

Além da identificação emocional, Raphael explica que os algoritmos reforçam esse processo ao recomendar conteúdos semelhantes aos já consumidos. “Quanto mais alguém interage com mensagens de espiritualidade, maior a tendência de receber novos conteúdos semelhantes”, destaca. Para Raphael, as redes sociais funcionam como uma porta de entrada para a fé ao despertar curiosidade e identificação, mas não substituem a experiência religiosa vivida fora das telas.
Cortezão também observa que períodos de ansiedade, luto, medo e incerteza aumentam a procura por conteúdos ligados à espiritualidade. Segundo ele, estudos em neurociência mostram que, diante de situações difíceis, o cérebro busca formas de reduzir a sensação de ameaça.
“A espiritualidade ajuda muitas pessoas a compreenderem a dor, encontrarem esperança e enxergarem perspectivas de futuro”, explica.
Apesar do potencial das plataformas, Raphael alerta que elas devem complementar, e não substituir, a convivência em comunidade. “Nós somos seres muito sociais. As relações presenciais fortalecem o sentimento de pertencimento e o suporte emocional”, afirma. Para ele, o sucesso das mensagens religiosas nas redes mostra que, mesmo em uma sociedade altamente conectada, “as pessoas continuam procurando respostas para perguntas muito antigas sobre quem elas são e onde podem encontrar sentido para a vida”.
Mudança na forma de viver a espiritualidade
A percepção dos entrevistados também encontra respaldo na produção científica. Um estudo publicado na revista científica Sacrilegens, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), aponta que o ambiente digital tem favorecido novas formas de vivenciar a espiritualidade, permitindo que muitas pessoas tenham o primeiro contato com conteúdos religiosos antes mesmo de frequentarem uma comunidade de fé.
O estudo ‘Espiritualidade contemporânea entre jovens: novos movimentos religiosos e novas formas de vivenciar a religiosidade’ foi realizado por pesquisadores brasileiros e portugueses das áreas de Psicologia, Antropologia e Ciência da Religião. A pesquisa é assinada por Maycon Rodrigo da Silveira Torres, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Natasha Martins, pesquisadora do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), em Lisboa, e Matheus Coutinho dos Santos Alves, psicólogo. Os autores destacam que as transformações sociais e o uso das plataformas digitais ampliaram as possibilidades de acesso a conteúdos religiosos, ao mesmo tempo em que muitas pessoas passaram a construir uma relação mais pessoal com a espiritualidade, sem abandonar, necessariamente, a participação em comunidades de fé.
Os pesquisadores também observam que a busca por espiritualidade está frequentemente relacionada ao desejo de encontrar sentido para a vida, bem-estar emocional e apoio diante das dificuldades. Segundo o estudo, essa dimensão espiritual pode funcionar como um fator de proteção em momentos de adversidade, aspecto que ajuda a explicar por que conteúdos religiosos publicados nas redes sociais encontram receptividade entre parte dos usuários.
Fé que também inspira empreendimentos
O fenômeno também se reflete no empreendedorismo. A empresária Fabrina Lobo encontrou na internet mais um espaço para evangelizar e compartilhar sua experiência de fé. Integrante da Comunidade Católica Shalom, ela conta que sua aproximação com Deus aconteceu há cerca de 20 anos, após o fim de um relacionamento. O convite de uma amiga para participar de um grupo de oração marcou o início de uma caminhada espiritual que transformou sua vida.
“Foi aí que eu tive uma experiência com Deus, com o amor de Deus, e aquilo fez com que eu me dedicasse cada vez mais a buscá-Lo, a encontrar consolo em Deus”, relembra.
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A espiritualidade também inspirou o próprio negócio. Segundo Fabrina, ela não queria que o trabalho fosse apenas uma fonte de renda, mas também um instrumento de evangelização. Após um ano de oração, nasceu o ateliê Senhora Soberana, especializado em peças religiosas personalizadas. Ela afirma que cada encomenda é produzida em clima de oração, tanto por quem a confecciona quanto pelas pessoas que irão presentear e receber as peças.
“Eu queria criar algo por meio do qual pudesse evangelizar. Passei um ano rezando o terço, pedindo a Nossa Senhora que me mostrasse o que ela queria que eu empreendesse e de que forma eu poderia evangelizar. Foi assim que nasceu o ateliê Senhora Soberana, com a produção de peças personalizadas e diferentes”, afirmou.
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Assim como Daniz, Fabrina também acompanha conteúdos religiosos nas redes sociais e acredita que esse tipo de publicação pode despertar nas pessoas o desejo de aprofundar a própria fé. Para ela, a internet pode representar o primeiro contato com a espiritualidade, mas a vivência da fé precisa ser construída para além das telas, por meio da oração, da comunidade e da prática religiosa.
A comunicação da fé na era digital
Para a doutora em Comunicação e Linguagem, Carla Castello Branco, o crescimento dos conteúdos religiosos nas redes sociais revela uma transformação na forma como a fé é vivenciada e compartilhada. Segundo ela, a experiência religiosa deixou de estar restrita aos espaços tradicionais, como igrejas, templos, centros espíritas e demais locais de culto, e passou a integrar também o ambiente digital.
“Há experiência religiosa nas redes sociais, em um processo contínuo de produção, compartilhamento e consumo de conteúdo, aproximando líderes religiosos, comunidades e fiéis”, afirma.
A especialista destaca ainda que qualquer debate sobre religião deve ser conduzido com responsabilidade e respeito, uma vez que “as crenças religiosas fazem parte da identidade de milhões de pessoas”.

Carla explica que esse movimento está ligado ao processo de “midiatização” da religião, em que a comunicação religiosa passa a fazer parte da rotina das pessoas por meio de vídeos curtos, lives, podcasts e mensagens nas plataformas digitais.
Segundo ela, recursos como vídeos curtos, lives e podcasts reduzem a distância entre líderes religiosos e fiéis, favorecendo o que a literatura chama de interação parassocial. “As redes sociais permitem comentários, respostas imediatas, transmissões ao vivo e mensagens diretas, reduzindo a distância entre líder e seguidor”, explica.
Apesar das oportunidades proporcionadas pelas plataformas, a pesquisadora alerta para os riscos de a religião ser influenciada pela lógica do consumo digital. Ela explica que os algoritmos tendem a recomendar conteúdos semelhantes aos já consumidos pelo usuário, o que pode favorecer a espetacularização da fé e até a mercantilização da espiritualidade. “O maior risco não é a religião estar na internet, mas a fé passar a ignorar a lógica das plataformas digitais”, observa. Para ela, “a quantidade de seguidores, curtidas e engajamentos não pode ser mais importante que a essência e a profundidade da espiritualidade”.
Na avaliação de Carla Castello Branco, as redes sociais devem servir como ferramenta para complementar a experiência religiosa, e não substituí-la.
“As redes sociais têm potencial para ampliar as informações, propagar orações e oferecer apoio espiritual. Elas devem complementar e aproximar, mas não substituir a experiência espiritual, que é individual”, afirma.
A especialista conclui que a vivência da fé continua sendo construída principalmente “na escuta, no cuidado com o outro e na participação em comunidades”, reforçando que a tecnologia é apenas um meio de aproximação.
Dados
Em meio à redução do número de católicos no Brasil, histórias como a de Daniz chamam a atenção para o papel das redes sociais na vivência da fé. De acordo com o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, os católicos representam atualmente 56,7% da população brasileira, percentual inferior aos 65,1% registrados em 2010. No Amazonas, eles correspondem a 47,4% da população, enquanto os evangélicos já somam 39,9%. Em Manaus, 44,38% dos moradores se declaram católicos e 39,49% evangélicos.
Ao mesmo tempo, o crescimento dos influenciadores religiosos acompanha um cenário em que a internet ocupa cada vez mais espaço na rotina dos brasileiros. Segundo o relatório Digital 2025: Brazil, elaborado pela We Are Social em parceria com a Meltwater e divulgado pela DataReportal, os brasileiros passam, em média, 9 horas e 9 minutos por dia conectados à internet, um dos maiores tempos de uso do mundo.
Nesse contexto de consumo constante de conteúdo, as redes sociais consolidaram-se como um espaço de circulação de mensagens sobre espiritualidade, aproximando líderes religiosos, criadores de conteúdo e fiéis, além de ampliar o alcance de testemunhos, reflexões e práticas de evangelização para milhões de usuários.





